terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Preparativos: o Carnaval de Vitória e suas ornamentações.

Num desses carnavais, não lembro quando, estive pelas bandas do município de Bezerros, terra dos Papangus, no agreste pernambucano, e lá, fiquei impressionado como as pessoas se envolviam de fato, com a cultura peculiar daquela cidade. As casas eram ornamentadas com máscaras carnavalescas e outros adereços. E a população, receptiva e devidamente fantasiada, brincava em frente as suas portas como numa perfeita comunhão com os que por ali passavam. Imagino que nossa querida Vitória de Santo Antão, já tivesse experimentado momentos como esses. Um passado por muitos, definido como “saudosos carnavais”, eternizado apenas pela memória de alguns e por escritos de cronistas daquela época.

MAS, passando pela Praça Leão Coroado, me deparei com a Estação Ferroviária iluminada e com uma bela ornamentação. Vitória já começa a respirar ares dos antigos carnavais. Parei e claro, registrei aquela bela cena por mim nunca vista em Vitória, com aquela vontade de compartilhar com vocês.




Curioso, fui procurar como estavam os preparativos para transformar a nossa cidade em uma Vitória digna da nossa rica cultura popular. Conversamos então, com o alegorista Deusdedith da Mata, um dos responsáveis pela execução da ornamentação de nossa cidade, para as festas de momo. Confira algumas fotos:


Confira os vídeos abaixo.


domingo, 8 de fevereiro de 2009

ALEGORIA VITORIENSE: O CISNE

Na antiguidade, em época de boas colheitas, para agradecer aos deuses, os camponeses realizavam festas nas quais enfeitavam seus corpos e, envolvidos pela música, demonstravam a alegria que sentiam em seus corações.

Poderíamos até afirmar que estas seriam as origens remotas do carnaval, mas uns alegam que as manifestações carnavalescas remontam às comemorações a Ísis e ao boi Ápis no antigo Egito; outros, às celebres bacanais, dos gregos, ou às saturnais, festas pagãs dos romanos.

Na Idade Média, com a repressão da Igreja, destas celebrações pagãs, sobrevivem apenas as máscaras que, mais tarde, no século XVI, evoluíram para as fantasias, permanecendo até os dias atuais. Nessa época, a festa pagã chega ao Brasil com o nome de entrudo, também denominado brinquedo selvagem, mela-mela como vemos ainda hoje, em algumas cidades do interior, sendo festejada tradicionalmente no sábado, domingo, segunda e terça-feira que antecedem o período da quaresma.


Entrudo, retratado no século XIX pelo pintor francês Debret.
Atualmente, em nosso país, existem três pólos monopolizadores do carnaval: o Rio de Janeiro, onde predomina o samba; a Bahia, cujo forte é o carnaval estilizado, comandado pelos trios elétricos; e, por fim, o mais fiel à tradição, que é o de Pernambuco, com uma infinidade de manifestações folclóricas, em que há o predomínio da criatividade e da popularidade, como: maracatus, caboclinhos, ursos, bois, blocos, etc...

Para cada expressão de folclore, existe uma particularidade especial, o maracatu de baque virado e o maracatu de baque solto ou rural. O maracatu de baque solto tem como sede a cidade de Aliança, interior de Pernambuco, denominada Associação dos Maracatus de Baque Solto. Os clubes de frevo são originários do Bairro de Santo Antônio, São José e da Boa Vista, tendo como primórdios antigas corporações ou profissões, tais como: carvoeiros, ferreiros, varredores. Já os blocos, são originários da poesia e do saudosismo. Eles surgiram das grandes reuniões familiares, como extensão dos pastoris e dos ranchos. Além das troças de caboclinhos, ursos e dos bois, ainda dispomos dos Papangus, de Bezerros; dos Bonecos Gigantes, de Olinda; do Clube de Máscaras Galo da Madrugada, e do carnaval de alegoria de Vitória de Santo Antão.

A cidade de Vitória de Santo Antão está aproximadamente a 48 km da cidade do Recife, sendo considerada, a grande defensora do carnaval de alegoria do estado de Pernambuco, com um grande número de agremiações do gênero. Trata-se de clubes que tiveram suas origens na segunda metade do século XIX, mesma reverência ao carnaval europeu.

O carnaval vitoriense caracteriza-se por sua grande diversidade. São troças, clubes de fados, de manobras, alegorias, os belíssimos maracatus, caboclinhos, escolas de samba e por fim os gigantescos blocos de trio, que contribuíram para os 127 anos de folia vitoriense, tornando-se por diversas vezes um dos melhores – ou senão o melhor – dos carnavais do interior de Pernambuco.

É certo que houve uma grande desfiguração carnavalesca após a chegada, no início da década de 90, dos trios baianos e seu Axé ensurdecedor, causando um grande choque de ritmos e estilos, que de uma forma estranha fez com que a própria população deixasse suas origens e culturas de lado. Mas, acreditava-se em uma inovação, modernização e diversificação, que, infelizmente, tornou-se uma escancarada descaracterização.

O carnaval em Vitória chegou ao seu apogeu na primeira parte do século XX, onde foram criados diversos tipos de agremiações que faziam a população festejar com muita alegria. Dentre elas, os Clubes de Fados e os Clubes de Manobras. Estes últimos, com inúmeros fãs, realizando grandes desfiles e bailes, principalmente o “Abanadores”, posteriormente batizado como “O Leão” pelo poeta Teopompo Moreira (JOSÉ ARAGÃO, 1983, p. 300), e o “Vassouras”, conhecido como “O Camelo”.

Segundo o professor José Aragão, no seu livro História da Vitória de Santo Antão, volume III, foi em uma dessas grandiosas apresentações que tudo começou. O “Vassouras’’ vinha do bairro do Livramento e da Matriz vinha o “Abanadores”, fazendo os rivais se chocarem durante o percurso, levando as a autoridades ordenarem o recolhimento às suas sedes, prevendo piores conseqüências. Posteriormente, pensando em evitar tais interrupções, vários foliões reuniram-se para fundar uma nova agremiação, formada em sua maioria por motoristas como afirmou o célebre jornalista João Álvares:
O Clube dos Motoristas da Vitória de Santo Antão foi fundado no mês
de março do ano de 1949, idealizado por um grupo de motoristas e pessoas ligadas
ao ramo automobilístico que desejavam construir um clube para proporcionar lazer
para os profissionais do volante, bem como cultivar solidariedade e o espírito
de disciplina e cooperação nas relações humanas.
Foi assim que surgiu o “Clube dos Motoristas”, em reunião realizada em 04 de março de 1949, pelos seus fundadores: “Valdemar Lino Chaves (1º presidente), Alfredo Francisco de Oliveira, João Vicente de Freitas, Sebastião Ferreira do Nascimento, Joaquim Francisco Damásio, Pedro Ferreira Guimarães, Abiatar Ferreira Chaves, Manoel José de Souza e Sebastião Pinheiro de Souza” (HISTÓRICO: CLUBE DOS MOTORISTAS, 2004, p. 09) Com a presença de mais de 80 pessoas, naquele mesmo dia, a primeira diretoria ficou assim formada: presidente - Valdemar Lino Chaves, vice-presidente - Jefre Coelho de Albuquerque, 1º secretário - Tertuliano de Albuquerque Barros, 2º Secretário - Valdemiro Lino Chaves, orador - José Hermínio da Silva, diretor - José Vicente de Freitas, fiscal - José Hipólito dos Santos, tesoureiro - Sebastião Barbosa de Araújo (JOSÉ ARAGÃO, 1983, p. 302) empossados dois dias depois.

No ano seguinte, em 1950, estreava-se pelas ruas da cidade, já com muita alegria, que ao longo dos anos foi atraindo muito mais foliões.

A primeira sede, era localizada na Rua Prefeito João Cleofas, sendo vendida, posteriormente, em 1965, pelo então presidente João Álvares, com a idéia de construir uma nova sede, vindo a ser inaugurada no dia 20 de julho do ano de 1971, no bairro do Cajá.

Entre os anos de 1965 e 1971, as reuniões eram realizadas na sede da Associação Comercial, na Avenida Mariana Amália, sendo o ponto de concentração nos dias de desfile, onde, por horas, se reuniam dezenas de foliões, aguardando, ao som da orquestra em aquecimento, o momento da sua saída.

Alegorias

O “Motoristas” destacava-se pelos seus belíssimos carros alegóricos, baseados nos temas criado para cada carnaval. Em 1966, uma alegoria criada pelo grande artista vitoriense José Marques de Sena (fundador do Museu do Carnaval) em homenagem à Marinha do Brasil, causou muitos comentários durante o seu desfile, devido a um grande Cisne (símbolo da Marinha) no carro principal.

A figura do Cisne fez tanto sucesso, que a população não parava de comentar durante os três dias de carnaval daquele ano. Devido à grande repercussão do Cisne entre os foliões, a então diretoria decidiu adicionar “O Cisne” em seu nome, passando a se chamar “Clube dos Motoristas – O Cisne”. Mas, segundo o alegorista José Marques de Sena "Mas cisne ainda é apelido, não é nome".

Em 1969, a chegada do homem à Lua trouxe inspiração ao artista José Marques de Sena, resultando em uma histórica alegoria que chegou a ganhar destaque nos jornais da capital após sua exibição no carnaval de 1970, merecendo além dos aplausos, um grande agradecimento do Consulado Americano.

O sucesso se repetiu por diversos carnavais, sempre com seus temas originais e carros alegóricos com muita criatividade.

Com a febre dos trios elétricos, o “Clube dos Motoristas – O Cisne” passou por diversas dificuldades, chegando a diminuir suas exibições e, durante alguns anos, chegou a não conseguir colocar-se nas ruas.

Esse ano, o alegorista José Marques de Sena completa 60 carnavais, sendo 50 deles cuidando pessoalmente das alegórias do Clube dos Motoristas. Com o tema Vitória dos Quatro Tempos, o alegorista nos mostrou o carro ainda em construção.




Novo estandarte do Clube dos Motoristas.
Ao lado, Deusdedith da Mata.
Na mesma oportunidade, filmamos o alegorista Deusdedith da Mata, prestando sua homenagem ao grande ícone da nossa cultura, o José Marques de Sena. Confira abaixo.
Relembrando momentos inesquecíveis de sua carreira e dos antigos carnavais, o alegorista José Marques de Sena, teceu alguns comentários. Confira os vídeos abaixo.

José Marques de Sena







quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Primeiro momento.

Hoje tivemos oportunidade de conversar com o José Marques de Sena, mestre das alegorias do nosso carnaval. Ele nos falou um pouco sobre sua história e sobre o Clube dos Motoristas - O Cisne, do qual faz parte. Aproveitando o pique, demos uma passadinha no galpão onde estão sendo preparadas as ornamentações que irão colorir a cidade neste ano; lá conversamos com o Deusdedith da Mata, um dos alegoristas que estão trabalhando pela bela roupagem do Carnaval da Vitória. Conversamos tambem com o carismático José Francisco de Santana, porta estandartes com mais de 30 carnavais.

Reportagem, fotos, videos e entrevistas confira aqui, nas próximas postagens.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

BLOG PUBLICARÁ SÉRIE DE REPORTAGENS SOBRE AS TROÇAS CARNAVALESCAS DE VITÓRIA

Recebemos uma ótima sugestão do amigo internauta Eduardo Álvares, vitoriense residente em terras potiguares. Aproveitando o zum-zum-zum das prováveis novidades (nem tão novas) no Carnaval de Vitória, ele nos sugeriu acompanhar como estão os preparativos, em uma série de reportagens sobre as troças e seus carros alegóricos.

Como tenho uma paixão tremenda pela cultura pernambucana, achei a idéia espetacular e claro será aproveitada. Já começamos a burilar a sugestão, ainda essa semana publicaremos a primeira reportagem de uma série que chamaremos “Alegorias Vitorienses: acompanhado o processo criativo”, onde vamos apresentar os bastidores do carnaval e os artistas que estão por trás da preservação de nossa cultura, como também difundir a história, por vezes desconhecida, de nossas manifestações culturais.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Obras de Lygia e Zélia ganham nova roupagem

A obra de duas damas da literatura brasileira ganha nova roupagem e já se apresenta aos leitores logo neste início do ano. Lygia Fagundes Telles e Zélia Gattai terão seus textos agora publicados pela Companhia das Letras, que desenvolveu um esquema especial de relançamento para cada uma. Zélia será a primeira a se apresentar, já em fevereiro, com a chegada de dois de seus mais famosos títulos, enquanto Lygia receberá justas homenagens em abril, com uma série de eventos.

Com uma escrita essencialmente biográfica, Zélia (1916-2001) deixou nove livros de memórias, um romance e três obras infantis O mais famoso foi justamente o que marcou sua estreia na literatura, lançado quando ela estava com 63 anos: Anarquistas Graças a Deus. Trata-se de um delicado retrato dos imigrantes em São Paulo, no início do século passado, quando italianos, espanhóis e portugueses fomentaram um movimento político-operário de fundo anarquista.

O livro tornou-se um imenso sucesso quando lançado em 1979, inspirando uma minissérie de televisão e distinguindo Zélia, que deixou de ser conhecida apenas como a mulher de Jorge Amado. "E até hoje continua muito adotado, daí nossa decisão de iniciar o relançamento com o Anarquistas e Senhora Dona do Baile", comenta Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras.

As duas obras chegam em fevereiro, cada uma com um caderno de fotos, detalhe, aliás, que vai acompanhar toda a reedição. Ao todo, serão reeditados 11 títulos separadamente - outros quatro deverão ganhar um corpo único, sob a organização do competente crítico e jornalista José Castello, que vai destacar seu cunho memorialístico. "É justamente o recorte na obra da Zélia que recupera a trajetória da família Amado", explica Schwarcz.

Em junho, será a vez de um infantil, Jonas e a Sereia. Outro grande sucesso da autora, Um Chapéu para Viagem, chega em agosto Com a previsão de lançamento de dois títulos por semestre, a sequência prossegue até fevereiro de 2011, data para Chão de Meninos e Cittá di Roma.

Já os livros de Lygia Fagundes Telles começam a chegar em abril com um precioso projeto editorial: as capas serão desenhadas por Beatriz Milhazes, uma das artistas brasileiras com maior reconhecimento no exterior na atualidade. E, desde que foi formalizado o contrato com a escritora, no final do ano passado, dois consultores, Alberto da Costa e Silva e Antônio Dimas, vêm relendo seus textos para reorganizar a nova publicação.

Os primeiros livros a ganhar nova roupagem chegam também com um ensaio crítico especialmente escrito para cada um. Assim, As Meninas terá a análise de Cristóvão Tezza enquanto o próprio Antônio Dimas se encarregará de Antes do Baile Verde. E Ana Maria Machado cuidará de Invenção e Memória. As obras terão ainda uma fortuna crítica especialmente preparada.

A festa, em abril, promete ser grande - além do início da reedição, a dramaturga e escritora Maria Adelaide Amaral vai selecionar trechos da obra da escritora e convidar atores para fazer uma leitura dramática. E o escritor e compositor Arthur Nestrovski prepara uma música especialmente para o evento.

O contrato com a Companhia das Letras, que passa a ter validade a partir do próximo mês, prevê a edição de 12 títulos. Com a antiga editora, a Rocco, continuam Conspiração de Nuvens e as coletâneas Meus Contos Preferidos e Meus Contos Esquecidos cujos contratos não expiraram. E também dois livros que Lygia se comprometeu a entregar, Passaporte para a China (crônicas escritas durante a visita àquele país, em 1964) e o infanto-juvenil Gatos, Cachorros e Outros Bichos. "Ela, no entanto, continua em plena atividade e já confidenciou que vem escrevendo algo novo, o que vai coroar sua vinda à editora", comemora Schwarcz.

Fonte: AE

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Maupassant, um mestre do conto.

Henry René Albert Guy de Maupassant foi escritor, poeta e um dos maiores contistas de todos os tempos. Sua obra é conhecida por retratar situações psicológicas e fazer crítica social com técnica naturalista.

Maupassant teve uma infância e uma juventude aparentemente felizes no campo, em companhia da mãe, uma mulher culta e depressiva, que foi abandonada pelo marido.

Na década de 1870, ele se dirigiu a Paris, onde se firmou como contista e teve contato com os grandes escritores realistas e naturalistas da época: Zola, Flaubert e o russo Turguêniev.

Entre 1875 e 1885, produziu a maior parte de seus romances e contos. Escreveu pelo menos 300 histórias curtas, muitas das quais algumas se tornaram mundialmente conhecidas, como Bola de Sebo, O Colar, Uma Aventura Parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett e O Horla.

Maupassant talvez tenha sido, nos últimos anos do século XIX, o escritor mais lido no mundo.

Rico e famoso, ele teve muitos casos amorosos, mas a sífilis o atormentou por mais de uma década, ocasionando-lhe pesadelos, angústia e de alucinações.

Em 1882, Guy de Maupassant tentou o suicídio. Morreu no ano seguinte, em um manicômio, aos 43 anos de idade. Foi enterrado no cemitério de Montparnasse, em Paris.

* 05/08/ 1850, Tourville-sur-Arques, França
+ 06/07/1893, Paris, França

Referência: UolEducação.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Nuvem Mórbida*


Os sinos tocam, uma leve ventania fazia um dos senhores segurar o seu chapéu, enquanto um dedo enrugado deslizava entre as peças de damas. Ele sentou e esperou. Observava atentamente a escadaria da igreja, as beatas desciam em pequenos passos, as crianças começavam a correr de um lado para o outro ao som da Ave-Maria que saia dos alto-falantes. Pombos circulavam do outro lado da praça, talvez, esperando um daqueles senhores sacudirem os grãos ao chão.

Ele não conseguia parar de olhar os senhores do tabuleiro; apesar de estar ali esperando há mais de trinta minutos, ele continuava com o seu sorriso de quem estivesse passando por uma experiência talvez única.

O carro parou e buzinou. Aquele barulho havia chamado a atenção de todos, inclusive dos pombos, que ao buzinar do automóvel, voaram em direção aos braços do Cristo crucificado. Você não vem? Perguntou a garota, da porta do carro.

Acertaram o encontro na tarde anterior. A mesa era estreita, mas chegava a caber diversas canetas e lapiseiras além de grossos livros de história e cadernos que se revezavam entre eles tentando um descobrir como o outro respondeu aquela questão. Mário - interrompeu ela - você já foi num asilo? Ele achou um pouco estranha aquela pergunta; o que havia o asilo com a história? Não... acho que não, por quê? Ela fechou os livros e explicou ainda com a lapiseira na mão que seus pais visitavam, sempre aos domingos, um lar de idosos perto da chácara da família. Após diversas tentativas, ele acabou cedendo.

Eram dois galpões divididos por um salão principal; na entrada um senhor trabalhava em um modesto jardim repleto de acácias; ele, assim que avistou os visitantes logo abriu um sorriso e acenou. O carro acabou parando perto da lavanderia, que ficava um pouco depois das acácias.

No salão principal, dezenas de senhores e senhoras batiam palmas em um belo louvor, enquanto outros apenas cochilavam, sentados em um dos sofás avermelhados espalhados pelo salão. Por um momento pensou em voltar para o carro e esperar que sua amiga voltasse com seus pais, mas ele era um jovem curioso. Logo entrou em um dos cômodos do primeiro galpão e apesar de ter demorado um pouco, logo se habituou.

Mas foi no quarto de número sete, que ele conheceu dona Tonha; ele sempre ficava com algum receio ao conversar com ela, mas ela era sempre comunicativa, falava de tudo: sua cidade, a santíssima e a casinha que tinha. Chorava quando falava de seus filhos. Mas logo mudava de assunto, falava da época da ditadura, lembrava do cadastro que havia feito com os comunistas. Nome? Antônia Maria Dolores. Filhos? Três. José Joaquim, José Manoel e José Severino. Fotos? E ela entregava as fotos 3x4 de cada um. Com o sentido que em uma semana chegaria os prometidos. E chegava; nas cestas vinham a cada quinze dias: arroz, feijão e batatas. Um quilo de cada.

Contou que cozinhava um pouco de cada coisa, sempre a cada quatro dias, economizava fervorosamente o santo alimento dos comunistas, mas como tudo chega a um fim. Ela chorou.

Falou da ajuda que recebia dos Bezerra e Silva; deixava os filhos em casa, todos chorando com fome: haviam passado mais de três noites sem comer nada. Chegava no armazém do Chico Bezerra por volta das quatro da madrugada. Ele quando a via, já pegava uma sacola de plástico e colocava um punhado de cada um dos cinco sacos de farinha. E ela corria para casa, fazia uma mistura de sal, água e farinha e cinco minutos depois estava todo mundo feliz, de barriga cheia.

A afinidade era tanta entre Mário e ela, que ele começou a visitá-la todas as tardes de domingo. Ficavam horas conversando e comendo pedaços de bolo (de mandioca) que ela adorava.

No quarto, de uma pequena escrivaninha ela tirava seus talheres e um prato, nunca comia em outros, sempre só nos seus. Ele sempre reparava nesses pequenos detalhes que faziam parte do cotidiano dela. Em cima da escrivaninha ela sempre acendia uma vela, e por volta de cinco minutos de seu jovem amigo chegar orava, pedindo forças e saúde ao seu novo neto.

Ele completou quinze anos, começou a trabalhar em uma obra perto de casa. Era quinta-feira da paixão, correu até lá para contar a ela sobre o seu primeiro emprego. Foi a pé. Passou pela avenida e pelas ruas do centro às pressas. A felicidade era tamanha que ele chorava de tanta alegria.

Ele murchou; sentia como se estivesse passando por uma estranha nuvem mórbida, sentiu seu coração arder ao ver uma estranha movimentação no salão principal. O que está havendo? Perguntou assustado.

O choque foi tão grande, que tudo escureceu. Bamboleou e quase caiu perto do caixão.

Arquiles Petrus
*Conto integrante do livro Cataclismo, Editora Baraúna, 2005.

sábado, 10 de janeiro de 2009

O PAI QUE AMAVA (Conto)


Para muitos era uma família estranha; não que seja desmantelada como essas famílias de hoje em dia. Eles eram diferentes, pelo menos para a vizinhança, sempre comentavam alguma coisa sobre eles. Talvez pelos seus hábitos esquisitos. Mas, nada fora do “normal”: trocavam as fechaduras todos os meses, não conversavam com ninguém e vestiam roupas estranhas, sem falar que nunca se via alguém lá dentro daquela casa.

A família era pequena: Hugo, o pai, alguns gatos e a pequena Clarisse de apenas cinco anos. Hugo tinha em torno de trinta. Era um magro sisudo de rosto esticado, talvez por causa de uma cicatriz que atravessava parte de seu rosto. Parecia sempre estar melancólico. Os vizinhos nunca o viram sorrindo, a não ser nas horas que ele saia para comprar os doces da pequena Clarisse, em um fiteiro da esquina. Ele era meio apressado. Não importa para onde ia ou se estava atrasado, às vezes até sem destino.

Clarisse era linda. Tinha olhos verdes (como os do pai) branquinha de tez vivaz e sempre usava roupinhas combinadas: se a pequena blusa era de cor rosada, todo o conjuntinho teria que seguir a mesma linha. Era uma exigência sua e não mudava de jeito nenhum.

- Papai eu muito gosto de você viu? – falou a pequena Clarisse, durante o jantar.

Ele se continha. Não agüentava ouvir essas coisas da pequena. Amava muito sua Bonequinha (como ele a chamava). Ela era tudo para ele, a amava de tal forma que começou a se preocupar com o seu futuro. Abriu uma popança em seu nome e começou a aplicar-lhe dinheiro. “Ah, sim, com muita certeza ela há de fazer uma boa faculdade!” pensava a cada novo deposito.

Ele adorava passar as tardes brincando com ela. Dava o próprio rosto para a Bonequinha praticar suas habilidades de maquiadora. Constrangido, ele se sentia uma sirigaita, fazendo a pequena morrer de rir.

Na hora do banho era uma novela! Há semanas que ela tomava banho sozinha. E quando ele ousava em lhe ajudar ela retrucava: “Papai, eu já sou uma mocinha, já tenho idade suficiente para me enxugar só.” Ele apenas sorria.

Numa tarde, ele estava mexendo em alguma coisa na porta.

- O que você esta fazendo papai?
- Estou trocando a fechadura.
- Fechadura papai? O que é fechadura?
- É onde colocamos a chave para fechar a porta. – explicou ele – olhe aqui.
- Ah... Entendi... Mas porque o senhor mexe muito na fechadura, papai?

Ele não respondeu. Pediu para a garota brincar com os gatos no quarto, enquanto terminava o serviço.

Deveria agora esconder a nova chave em um lugar seguro! Afastou o centro – que estava na sala – para o canto da parede, pegou uma das cadeiras da cozinha, colocou-a em cima do centro, e subiu. Tentava alcançar à divisória daquela parede, que dava para o quarto de dispensa. Começou então, ali deixar as chaves. Temia que a pequena Clarisse, saísse para a rua, sem que ele soubesse.

Ele há muito vinha se preocupando com as portas. Principalmente depois que começou a ver alguns noticiários na TV. Muitos assaltos vinham acontecendo. Não eram na cidade, diziam os repórteres, mas ele iria confiar? “O mundo está muito perigoso!” não parava de pensar nisso.

A cada novo plantão ele ficava apreensivo. Roia as unhas quando via tanta miséria e desgraça acontecendo pelo mundo afora. Já era notória sua frustração para os vizinhos.

Bastava qualquer ruído durante a madrugada para ele sair correndo para o quarto da pequena Clarisse. Ele ficava apavorado só em pensar em acontecer alguma coisa com a sua princesa. Passou então a ser guarda noturno, todas as noites encostando-se à porta do quarto da pequena. E ao amanhecer acordava assustado com os gatos se esfregando em sua perna, talvez pedindo alguma coisa para comer.

Temia o futuro da sua Bonequinha, nesse mundo de tantos assaltos, estupros... de tantas discórdias. Não agüentava mais, tinha que fazer alguma coisa para protegê-la disso tudo!

Numa manhã ele trouxe algumas caixas. A pequena Clarisse ficou eufórica quando viu as lindas bolas vermelhas, as trenas e dezenas de outros enfeites. Começara então, com a ajuda do pai, a montar a sua primeira arvore.

Quando trocava a fechadura, pela quinta vez naquele mesmo mês, ele conseguiu pensar no presente que iria dar a pequena Clarisse. Na tarde seguinte foi ao shopping. Comprou um lindo travesseiro do Ursinho Pooh que ela tanto amava e lhe deu naquela noite.

- É lindo papai! – respondeu, dando um abraço demorado.

Ele deu um sorriso triste. Apertou o abraço da filha amada e deu-lhe o beijo em sua bochecha. – Está na hora de dormir, vamos...

Tudo já estava pronto. Deitou-a na cama e ajustou o novo travesseiro. A pequena com olhar de pidona lembrou a seu pai os contos de fadas de todas as noites. Ele suspirou. Contou-lhe em fragmentos rápidos, uma fantástica fábula de uma tartaruga lerda que vencia corridas para uma lebre que se achava inteligente. E, antes que a tartaruga cantasse de galo, a pequena já estava dormindo.

Ficou observando-a. Deixou que algumas das diversas lembranças passassem por seus olhos: as maquiagens extravagantes, o banho, os sonhos... Teria mesmo que ser assim? Determinado, tirou alguma coisa do bolso.

Hesitou.

Lembrara da esposa; do triste incidente que lhe arrancou a vida. Fora assassinada quando voltava para casa. Chorou descontrolado por não conseguir proteger sua esposa daquilo tudo.

Tudo iria se repetir?!

Olhou novamente para o objeto da mão esquerda.

Ouvia-se os sinos da igreja e algumas sonatas, quando teve que mover o delicado queixo de sua Bonequinha para, enfim, esvaziar o frasco por inteiro.

No dia seguinte, encontraram-no desnorteado, chorando em meio de várias bonecas; e dentre elas, estava a pequena Clarisse.

Arquiles Petrus.
Outubro de 2007.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Uma galinha

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.

parecia calma. desde sábado encolhera-se num cante da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou – o tempo da cozinheira dar um grito – e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou o telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão de rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais intima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.

Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.

Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como. o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.

Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou. Entre gritos e penas, ela foi presa. em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.

Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:

Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!

Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:

– Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!

– Eu também! jurou a menina com ardor.

A mãe, cansada, deu de ombros.

Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a da apatia e a do sobressalto.

Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.

uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho – era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.


Clarice Lispector,
Laços de família. Rio, Francisco Alves, 2ª ed., 1961.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Últimas horas

Foto Ilustrativa - http://www.overmundo.com.br/


Nas últimas horas desse ano, algo me fez muito bem. Ontem, enquanto jantava numa pizzaria, uma pequenina se divertia em trocar pequenos saches de maionese comigo. Ela se abria de felicidade quando pegava o seu sache de catchup e atravessava algumas mesas pra me entregá-lo; e eu, claro, retribuía entregando o meu de maionese. Parece besteira isso, né? Não é não, ficamos nisso por minutos. Me sentia muito bem com os lindos olhos de felicidade da pequena Alice (como lhe batizei). Legal como as crianças se divertem com coisas simples. Isso é muito bom. Enquanto pouco tempo atrás estava irritado, ela curtia o seu momento de felicidade, nem aí pro pessoal que ria ao nosso redor, enquanto transbordava alegria pra todos.

Daqui a pouco se inicia um novo ano, deveríamos aproveitar essa renovação para fazer como a pequena Alice, que se entregou num simples momento que proporcionava felicidade. São das coisas simples que deveríamos aproveitar de verdade.

2009 será o ano de mudanças.


Arquiles Petrus

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Conto de Natal: O PRESENTE

Ontem, em comemoração ao Natal o jornal O Mossoroense (do RN) publicou o conto "O PRESENTE". Conto natalino que havia escrito em 2007.

Não leu? Leia aqui ou aqui.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Cataclismo

Enquanto assistia aos jornais hoje pela manhã, quando noticiavam sobre graves enchentes lá em Minas, lembrei de um pequeno conto que escrevi aos quatorze anos. O texto é bastante antigo, integrou o livro de contos "Cataclismo", que reuniu meus primeiros escritos, publicado em 2005 pela Editora Baraúna. A ilustração é de João Francisco. Leia abaixo:


Cataclismo

Acordo. O relógio marca seis da manhã. Um cansaço emocional me vem à tona. Uma dor intensa na cabeça me faz ficar um pouco deitado por mais alguns instantes.

Visto-me e vou à sala. Não vejo ninguém. Sinto sede, vou à cozinha e só encontro algumas panelas em cima do fogão. Acho que todos ainda dormem. Lavo meus olhos num banheiro ali perto e volto ao quarto para procurar algum calçado pra sair.

Pela praça da Matriz, sigo em direção à avenida. Lá, encontro dezenas de pessoas tentando limpar as ruas completamente atoladas de lama; tenho que medir os passos para poder conseguir continuar, as casas comerciais estão em caos, portas foram arrombadas pelas águas, dava parar ver dezenas de celulares, sapatos e várias outras mercadorias encharcadas de lama nas encostas. Alguns tentam salvar o que restou... outros roubavam o que havia restado.

Pasmo, porém curioso, acelerei os passos. No final da avenida, escuto alguém falar da Rua da Madeira. Não escutando bem o que aquele senhor havia falado, decidi ir lá e ver o que havia; afinal, estava bem perto dali.

Um bebê chorava enquanto eu caminhava pelo que restava daquela rua. Sinto alguma coisa rodar em meu estômago. Aquilo não parecia ser uma rua, muita lama espalhava-se entre aparelhos de televisão, sofás ou brinquedos; lá, quase não se encontravam mais casas. Aquele conjunto popular estava em ruínas, várias casas haviam caído com a força daquele rio. Sinto alguém me puxar pelo braço!

“Aqui, filho, aqui, veja...”. Falou uma senhora apontando um risco na parede.

Senti como se meu coração tivesse sido colocado em uma máquina de moer carnes, com alguém rodando uma maçaneta, moendo aos poucos. Meu coração estava em migalhas.

“A água chegou aí?” – Perguntei perplexo.

Antes que ela respondesse, eu já estava muito longe dali. Voltei minha atenção à rua, enquanto aquela senhora começava a contar como conseguiu salvar seu animal de estimação. Volto a caminhar, a situação é deplorável; eu me sinto como se estivesse em uma sena de guerra. Diante da esquina, parei. Uma senhora me observava. Seu olhar de sapiência me chamou atenção, sigo em sua direção; ela pega em minhas mãos e, olhando em meus olhos, deixa algumas palavras saírem de sua boca:

“Ainda há quem reclame da vida por tanta besteira...”

Concordei com ela, chorando. Talvez, ela conhecesse minha vida muito mais do que eu.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

MEU VELHO AMIGO.


Eu deveria ter escutado meu bom e velho amigo. Sempre me alertava sobre o tempo e o quanto deveria aproveitá-lo ao máximo. Há pouco, percebi que ele sempre teve razão.

Tenho recordado de momentos que estivemos juntos, antes de sua morte. Não eram longos diálogos, nossas conversas se limitavam a pouquíssimos minutos. Mas quando mandava me chamar em sua sala, no trabalho, ficava ansioso pensando em que iria ouvir.

Sua voz serena, cansada de muitos anos, fazia uma ótima relação com o ambiente deixando-o propicio para um bom aprendizado. Seus olhos, quase cobertos por suas pálpebras caídas pelo tempo, me fitavam enquanto comentava sobre suas experiências. Disse-me, certa vez, que eu precisava ter paciência. Conhecia qualquer que seja, com seu olhar clínico, de pai atento. Eu estava ansioso. Alertou-me que o reconhecimento é resultado de muito trabalho e bom aproveitamento do tempo. Falou da época em que seus olhos lhe permitiam ler com mais facilidade, enquanto seus amigos saiam desenfreados em correria de um lado para outro, durante intervalos entre as aulas, ele abria um livro e aproveitava o tempo, o seu precioso tempo para ler mais algumas linhas. Ele sempre teve razão, perdemos tanto tempo com futilidades que esquecemos que estamos neste mundo para se desenvolver e ser útil. E, eu, em minha ignorância juvenil, não havia compreendido naquela época o que ele tanto queria me dizer.

Nesse dia nossa conversa durou pouco mais que cinco minutos; mais tempo que qualquer outra que tivemos. Lamento não tê-lo por aqui, deveria ter ouvido meu bom e velho amigo, talvez não tivesse perdido tanto tempo.

Arquiles Petrus

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Conto: A morada de Deus

Fazia eu a barba, quando minha filha de cinco anos perguntou: - Papai, onde é que Deus mora realmente?

- Num poço – respondi distraído.

- Num poço?! – exclamou relutante, diante da tolice que eu havia dito.

Durante o café da manhã, minha esposa perguntou:

- Que foi que você andou dizendo à Laurinha acerca de Deus morar num poço?

- Num poço?! - estranhei. – Deixe-me ver... por que é que eu diria isso a ela...

Naquele momento não encontrei resposta para tal, bem mais tarde, de repente, recordei-me de uma cena que estivera escondida na minha memória durante uns trinta anos. Acontecera na minha terra, à pequena cidade de Goiana, um bando de ciganos havia chegado, no sítio onde morávamos pedindo água para beber, nessa época nossa fonte d´agua era um poço que tínhamos no quintal. Ao conhecer o motivo da chegada deles, vovô foi logo dizendo: - Mazinho leve-os ao quintal e dê-lhes água. Nessa época eu deveria ter uns cinco anos.

Daquele bando, um cigano em particular me chamou a atenção, por ser gigantesco, jamais havia eu visto homem tão grande. Havia tirado do poço um balde de água, e estava de pé, com as pernas fincadas no chão, com força, e bebendo água, como se não o fizesse há dias. Um fio de água corria-lhe barba abaixo, pois nas mãos segurava o balde como se copo não houvesse. Ao terminar, puxou um lenço da cabeça e enxugou o próprio rosto. Depois se inclinou e olhou para o fundo do poço, e permaneceu assim por alguns minutos. Curioso, tentei subir pela beirada de pedra para ver o que ele tanto observava lá embaixo. O gigante notou, deu uma gargalhada e levantou-me pelos braços.

- Sabe que mora lá embaixo? - perguntou-me.

Abanei com a cabeça.

- É Deus – disse ele com convicção.

- Deus?! – esbravejei incrédulo.

– Olhe! – e segurou-me bem acima da borda do poço como um guindaste.

Lá, na água parada como um espelho, vi o meu próprio reflexo, e mais nada.

- Mas aquele sou eu! – respondi com irritação.

- Ah! – tornou o cigano, pondo-me delicadamente no chão. – Agora você já sabe onde Deus mora.
Altemar Pontes

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Conto: O JOVEM GUERREIRO

Durante o solstício, os membros do vilarejo se reuniam ao redor de uma grande árvore para festejar ao som de flautas e liras, e como já era esperado, fez-se silêncio quando o Sacerdote se aproximou.

Ele vestiu uma túnica de cor escarlate, levou os braços aos presentes e ao pé da grande árvore riscou alguns símbolos na terra branca, dando por iniciados os ensinamentos daquela noite.

Olhou para todos como quem procura alguém, e, ao avistar o jovem guerreiro Guy, filho de Gna, fez-lhe o gesto com as mãos fazendo-o aproximar. Tomou-lhe as armas e roupas, e, em seus olhos disse: Escuta o que te digo, chamarei o velho Mig's e lutarás com ele aqui, ao pé da sagrada árvore.

Guy era o mais forte, maior e o mais valente entre os homens do vilarejo. Sentiu-se, então, confuso ao ouví-lo. Como lutarei com o velho Mig's? Ele não agüentará um sopro sequer e logo cairá morto! - falou com tom seco ao Mestre; porém com outro sinal, o sapiente fez alguém se aproximar.

O velho Mig's aparentava ter mais de duzentos anos, era coxo e não enxergava de um dos olhos. Aproximou-se com certa dificuldade, fazendo o Sacerdote riscar algo no chão dando início à luta.

O jovem se movimentava com alvoroço: ia de um lado para outro, talvez pensando de qual forma ia fazer cair o velho indefeso; fez gestos com a boca e logo correu em direção a ele, como quem ataca um lobo em noite de caça. O velho esquivou-se. Bateu-lhe com uma das mãos e fez cair o jovem ao chão. Levantou-se furioso. Determinado. Rápido.

Pegou-lhe pelas pernas e quis derrubá-lo. Nada. E o velho Mig's se esquivava, mal demonstrava cansaço e com poucos gestos, fazia cair o valente guerreiro.

Quando o jovem Guy já não agüentava mais estando estirado na terra branca, o Sacerdote interveio e todos os presentes sussurravam atônitos; Yag, o ferreiro, logo questionou: Como poderia o maior entre os guerreiros se esbandalhar para um velho coxo e cego?

O Sacerdote apenas sorriu ao indagá-los:
- Quem entre vós, mais cedo ou mais tarde, não acaba sendo vencido pela Velhice?


Arquiles Petrus

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Conto: O Garoto

Tivemos uma semana e tanto na redação. Marilia, como sempre, muito nervosa com aqueles seus editoriais malucos sobre economia que eu mal entendia; ficávamos meio desorientados quando ela nos vinha com aquelas loucuras de sobe-desce da inflação. E pior: bem na hora do bendito almoço. Era engraçado como Pedro, o editor de esportes, ironizava:

- Está bem. Mas me diz aí Marilia, você acha melhor quando o negocio sobe ou desce?

E todos riam da malicia do Pedro, inclusive Marilia, que parecia gostar das nossas brincadeiras.

Justamente nesse dia, Pedro nos disse que precisávamos relaxar, que nos achava sérios demais. E ele tinha razão, a loucura de um jornal tinha nos deixado “aloprados” como ele sempre dizia. Todos adoravam aquele seu jeito meninão.

- Nós? Aloprados? – disse eu tentando revidar.

- Sim, senhor editor de textos... aloprados!

Logo depois nos surpreendeu com sua proposta: “que tal um zoológico, no final da tarde?”.

Parecia algo meio maluco, mas depois de muita insistência todos aceitaram. E antes do final de expediente lá estavam todos entrando no gol-branco de Pedro.

Logo depois de uma longa subida que dava acesso ao zoológico, vimos vários garotos em direção ao carro balançando freneticamente suas flanelinhas que mais pareciam pedaços de camisa rasgada. Como era final de tarde, paramos logo perto da bilheteria que ficava debaixo de uma grande mangueira. Tocava alguma música que não consegui distinguir, talvez daquelas antigas canções que se ouvia muito em frente das casas no final da década de oitenta. Parecia que ali o tempo não havia passado. Enquanto Marilia e Pedro compravam nossas entradas, um garoto havia me chamado atenção.

Ele estava sentado no meio-fio, um pouco distante de nós. Deveria ter oito, nove anos no máximo. Vestia uma camiseta avermelhada e uma bermuda jeans. Sentado e triste, abraçava as pernas contra o peito, apoiando o queixo num dos joelhos enquanto parecia chorar.

Algo me fez aproximar.

- Onde estão seus amiguinhos? – perguntei me agachando.

Ele chorava. Senti algo estranho quando ele me fitou. Fiquei tonto. Olhei em minha volta e tudo parecia que havia mudado; estava num parque, naquele mesmo parque que dava entrada ao zoológico; a voz de crianças se misturava ao som que saíam dos alto-falantes pendurados nos postes de madeira. Dezenas de crianças brincavam em gangorras, balanços de ferro ou subiam em casinhas de madeira para descer num escorrego. Eu suava, não entendia o que acontecia quando percebi um grupo de crianças. Sete talvez. Eu estava entre ele. Corriam todos para a bilheteria quando vi que eram amigos de infância, da minha infância; pareciam eufóricos por estar ali, prontos para entrar no zoológico recém-inaugurado, todos se remexiam afobados, menos eu. Pus a mão no bolso e não havia dinheiro, nem se quer uma moeda. Todos zombavam de mim, falavam coisas. Eu chorava, pedia algo, mas eles não me ouviam. Não queriam me ouvir. Quando entraram no zoológico sentei num meio-fio e chorei por saber que papai nunca me levaria pra ver o leão, muito menos me daria moedas. Fiquei ali chorando por quase duas horas esperando meus amiguinhos voltarem.

Dei-me conta que estava agachado na frente de um garoto que abraçava suas pernas chorando. Sentia meu coração apertado, como quem quisesse estar naquele mesmo jeito. Foi nesse momento que percebi o que na verdade os olhos daquele garoto refletiam.

Arquiles Petrus

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Conto: O Presente

Entre algumas montanhas do sul o vento soprava forte, levando todos os flocos para baixo, cobrindo toda a vila; os telhados refletiam o branco vivo da neve e não mais se via a estrada, apenas um caminho de gelo, que em determinados momentos refletiam o piscar das luzes de diferentes cores: azuis, amarelas e vermelhas, dos enfeites colocados há pouco na varanda.

Entre uma janela e outra, via-se uma família em ceia. Crianças corriam transbordando de alegria e fervor. Era o espírito do natal que estava chegando, enquanto o chefe do lar cortava – em pequenos pedaços – o peru recém colocado à mesa.

Outra casa, ao lado, oravam todos de mãos dadas, o pai nosso. Mas um pequeno sorridente abria e fechava os olhos, querendo ver se todos realmente rezavam, sua atenção estava voltada para os presentes.

Mais à frente, todos brincavam à chaminé, onde quatro meias, coloridas, esperavam os presentes do Noel de todos os anos. Os pais ficavam abraçados, olhando aquela criançada brincar com os enfeites da árvore.

Mas ao final da vila, separado dos outros, um casebre quase não aparecia de tão simples que era. Não se via enfeites, brumas ou árvore de natal. Apenas uma luz amarelada que brilhava, pela janela, o chão branco da neve.

De fora via-se tudo. Um pequeno pedaço de madeira era usado como mesa para alguns pratos e talheres. O garoto aguardava. Atento. Ansioso. Talvez esperasse o presente natalino ou um simples afago. O pai ficou triste, quando sua companheira chegou com o cardápio da noite: um pedaço de peito de frango que havia restado do jantar, do dia anterior. Dividiu em três outras partes e distribuiu entre os presentes.

Deram-se as mãos e rezaram por alguns minutos. O pai, ainda tristonho, disse-lhe que havia pouco dinheiro, mas lhe daria uma coisa mais preciosa do que os brinquedos.

Do bolso ele tira um embrulho feito com papel-jornal e lhe entrega com muito amor. O garoto, alvoroçado, começa a desembrulhar o pequeno pacote e ao ver o que tinha dentro seu olhar fica triste e vazio.

O pai, embaraçado, perguntou:

- Não gostou do presente, filho?

O garoto estava decepcionado; não era o que tanto desejava.

- Filho, achamos que você gostaria...

- Não mãe, gostei; gostei de verdade...

A reposta foi sem ânimo.

O jantar chegou ao fim e em pouco tempo já estavam todos em cochilo em seus aposentos. Menos o garoto.

Deitado, olhava para o telhado como quem procura o sono lá em cima; queria mesmo era um tabuleiro de damas... uma bola de futebol... ou até daqueles jogos que se podia brincar de ladrão e detetive, não aquele presente!

Mas algo estranho estava para acontecer.

Deu um sobre-salto quando ouviu o barulho. Curioso como era, procurou assustado da onde vinha aquele estranho som: olhou para todos os lados, de baixo do colchão e das roupas amontoadas pelo chão, mas nada encontrava.

Gelou dos pés a cabeça, quando percebeu que o barulho (que agora era fino demais) vinha de dentro do embrulho que o seu pai havia lhe dado.

Quis se esconder, mas como o seu quarto era pequeno, não havia onde. Ficou encolhido no canto. Até que o som desapareceu, fazendo-lhe abrir os olhos, outrora fechados com muita força de tanto medo.

Como a sua curiosidade era maior do que seu medo, ele foi até o embrulho que estava na outra extremidade do quarto e tirou o presente do pacote.

Era um velho livro de capa dura avermelhada, com o titulo de cor dourada e brilhante. Ficou impressionado, quando percebeu o seu quarto iluminado com o brilho que saia de dentro do maravilhoso presente.

Deitou-se na cama e ficou observando o livro, com aquela vontade de saber o que deve ter ali dentro daquelas dezenas de páginas cheias de palavras, que outrora não despertara interesse algum.

Decidiu então, ler apenas a primeira página. Como já estava debruçado sobre o livro, logo o abriu, ficando abobado com a primeira impressão: uma grande gravura de um cavaleiro em sua armadura em cima do cavalo robusto, negro; o guerreiro segurava um estandarte e parecia estar preparado para a luta.

Virou a página e começou a ler, e quando menos esperava já havia percorrido junto ao cavaleiro em sua trajetória repleta de guerras e aventuras. E antes de amanhecer percebeu que aquilo tudo era melhor que qualquer outra coisa que seu pai poderia lhe presentear.

O garoto nunca mais foi o mesmo. Todas as noites, após a refeição, ele corria pro quarto e viajava pelos diversos mundos da fantasia: conheceu heróis e vilões, pescadores e grandes aventureiros. Nunca mais ele se esqueceu do maravilhoso dia em que seu pai lhe deu asas para voar.

Arquiles Petrus
(Em dezembro de 2006)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Vejo as coisas girarem como num rodopiar de um automóvel. Finas pancadas adentram em meus olhos, desnorteando tudo e qualquer coisa que, outrora, houvera sentido.

Arquiles Petrus

Dia Nacional do Livro


O dia 29 de outubro foi escolhido como Dia Nacional do Livro em homenagem à fundação da Biblioteca Nacional, que ocorreu em 1810. Só a partir de 1808, quando D. João VI fundou a Imprensa Régia, o movimento editorial começou no Brasil. O primeiro livro publicado aqui foi "Marília de Dirceu", de Tomás Antônio Gonzaga, mas nessa época, a imprensa sofria a censura do Imperador. Só na década de 1930 houve um crescimento editorial, após a fundação da Companhia Editora Nacional pelo escritor Monteiro Lobato, em outubro de 1925.

A Origem do Livro

Os textos impressos mais antigos foram orações budistas feitas no Japão por volta do ano 770. Mas desde o século II, a China já sabia fabricar papel, tinta e imprimir usando mármore entalhado. Foi então, na China, que apareceu o primeiro livro, no ano de 868. Na Idade Média, livros feitos à mão eram produzidos por monges que usavam tinta e bico de pena para copiar os textos religiosos em latim. Um pequeno livro levava meses para ficar pronto, e os monges trabalhavam em um local chamado "Scriptorium".

Quem foi Gutenberg?

O ourives culto e curioso Johannes Gutenberg (1398-1468) nasceu em Mainz, na Alemanha e, é considerado o criador da imprensa em série.Ele criou a prensa tipográfica, onde colocava letras que eram cunhadas em madeira e presas em fôrmas para compor uma página. Essa tecnologia sobreviveu até o século XIX com poucas mudanças. Por volta de 1456, foi publicado o primeiro livro impresso em série: a Bíblia de 42 linhas. Conhecida como "Bíblia de Gutenberg", a obra tinha 642 páginas e 200 exemplares, dos quais existem apenas 48 espalhados pelo mundo hoje em dia. A invenção de Gutenberg marcou a passagem do Mundo Medieval para a Idade Moderna: era de divulgação do conhecimento.

A Importância do Livro

O livro é um meio de comunicação importante no processo de transformação do indivíduo. Ao ler um livro, evoluímos e desenvolvemos a nossa capacidade crítica e criativa.
É importante para as crianças ter o hábito da leitura porque com ela, se aprimora a linguagem e a comunicação com o mundo. O livro atrai a criança pela curiosidade, pelo formato, pelo manuseio e pela emoção das histórias. Comparado a outros meios de comunicação, com o livro é possível escolher entre uma história do passado, do presente ou da fantasia. Além disso, podemos ler o que quisermos, quando, onde e no ritmo que escolhermos.

Fonte: http://www.criancafazarte.com.br/datas/datas_dialivro.htm
Desenho: Ziraldo

sábado, 25 de outubro de 2008

O Cubismo de Pablo Picasso

Se estivesse vivo, o versátil artista faria hoje 127 anos. Autor de milhares de trabalhos, não só de pintura, como também esculturas, peças em cerâmica e poesias. Contudo, eternizado por sua maestria com os pinceis, tornando-se um dos grandes mestres da Arte do Século XX.


Entre suas obras, destaco Guernica (1937) - acima. Tela tragicamente bela, Picasso, produz fragmentos diversos, de momentos atrozes da Guerra Espanhola em 1930.

Vale a pena conhecer mais Picasso. Clique Aqui.
Arquiles Petrus

Conto: Maria Martha

São quase onze horas e ele ainda não ligou. Ele nunca deixa de ligar quando está atrasado, o que será que aconteceu? Vou me deitar na sala, ali perto do telefone talvez ele ligue, aí já atendo logo não é? Nossa como o teto está nojento, preciso passar uma vassoura ali, está cheio de poeira. Espere aí, hoje é sábado. É isso! Esse sacana deve ter ido pra algum bar com aquelazinha. Será? Não. Ele não faria isso comigo. Ou faria? Não, não, acho que não. É... ele deve estar no futebol com os amigos lá naquele campinho perto do apartamento. Será? Mas noite de sábado... é, deve ser isso mesmo. E depois do futebol deve ter ido para algum barzinho com os amigos. Espere aí. Barzinho com amigos? Não gosto de Alberto e aqueles outros amigos dele, são todos uns galinhas e ainda mais, colocando ele pra beber! Minha nossa, eles devem ter ido de lá pra algum daqueles bares de beira de estrada.

Odeio quando ele chega aqui todo sujo com aquele bafo de cachaça. Me chamando de amor, de anjinho. Meu bem pra cá. Meu bem pra lá. Todo doce. Da última vez que ele chegou assim quase que lhe dei uma surra. Estava totalmente bêbado. Hum... as vezes gosto quando ele bebe, na hora do vamo-ver ele sempre dá conta do recado. Mas só quando toma uma. Minha nossa, e como dá conta do recado. Espere aí, da última vez que ele apareceu assim, tava todo-todo com cheiro daqueles perfumes baratos, tipo Gabriele Sabatine da pior qualidade. Argh! Se ele me aparecer com esse cheiro de novo, juro, mas juro mesmo, que dessa vez ele me apanha. Se eu descobrir que aquele filho-da-mãe tá saindo com aquela raputenga, ah, ele me paga. Minha nossa, são quase onze e oito, e ele não chega e nem sequer dá um telefonema. Sim, tudo bem que todo homem é atrapalhado pra se arrumar, mas já faz muito tempo que tô aqui esperando. Aquela piranha deve tá com ele. Ele deve tá me traindo... Mas, será? Quer me trair? Que me traia, mas com ela não, ela não! Minha nossa, estou chorando, não acredito que ele fez isso comigo. Espelho. Preciso de um espelho. Ahhh chorar não! Seja forte mulher, aquele galinha não merece você. Olhe, você é linda. Claro. Você é uma gata. Pronto. Sem chorar. Mas, se aquele galinha estiver com a raputenga... espere, espere, sem chorar, vamos. Pronto. Ahh, ele não faria isso comigo. O telefone. Corre. Tá tocando. Pronto. Alô, Eduardo? Quê? Não, aqui não mora nenhuma Lorena, não. Ah, minha senhora, num tem nenhuma Lorena. Mas. Não. Não sou Lorena. Minha senhora... Mas era só o que me faltava. Será que ele ligou e deu ocupado? Minha nossa. Que droga, tudo culpa daquela maluca procurando a puta da Lorena. E eu sei lá quem é Lorena! Esqueci de tirar as teias do teto! A vassoura, cadê a vassoura? Pronto. Ainda falta ali. Não alcanço. Só se for com aquela cadeira. Ah, ele vai me escutar sim. Isso lá são horas? Pronto. Teto sem poeira. Espelho. Cadê o espelho. Pronto, continuo linda, você é uma gata. Ele sabe que odeio esperar. O DE IO. Ah, ele vai se ver comigo, a vai, a regra agora é um mês sem sexo, quero só ver. Vou deixá-lo maluco, mas nananinanão! Nada de sexo. Tô com fome. Aquele galinha disse que queria jantar comigo para comemorar o nosso aniversário. Mas é muito filho-da-mãe. Deixa-me ver: pão, maionese, picles, mortadela. Isso, isso e isso. Pronto. Onde coloquei a maionese? O telefone. Corre. Minha nossa. Espera, já tô indo. Pronto, alô? Oi mãe... tudo bem mãe. É mãe. Não mãe. Já mãe. Tá mãe. Humrum vou tentar mãe. Tchau mãe... Eu não agüento mais, vou chorar de novo, ele não me ama mais, tenho certeza. Ele tá com outra. Eu sabia, aqueles telefonemas todos, sabia que era outra. E é ela, eu sei, tenho certeza que é ela! Devem tá saindo de algum barzinho, indo pra algum motel. Motel? Ele nunca me levou num motel... ele não me ama... vou ligar. Mãe? Acho que ele tá me traindo mãe... Choro, choro sim, e a senhora queria que eu ficasse como mãe? Não mãe, eu tenho certeza, ele ta me traindo com ela mãe! Ai como dói. Não me peça pra parar de chorar mãe, dói muito. É mãe, com aquelazinha, lembra? Minha nossa, a campainha. Corre, corre, corre. É ele. Espelho. Cadê o espelho. Pano, pano, preciso enxugar isso. Pronto. Linda. Perfeita."
Ela abriu a porta.

"Ai amor, você é fofo sabia? São lindas, adorei. Ai amor, você nunca esquece do aniversário da gente não é? Te amo muito sabia?"

"Alô, mãe? Ele chegou, depois te ligo tá? Mãe, to tão feliz... você acredita que ele parou no caminho pra me comprar rosas? Muito fofinho ele, não é, mãe? Beijos..."

"Amor? Vamos?"